Uma história com um início inesperado, mas com uma continuação feliz! 

Eu, Grávida de 32 semanas da Madalena

Era dia 29 de Dezembro de 2014, e estava eu bem longe de saber que vinha aqui parar.

Eu, Ana, com formação na área da saúde, senti que tinha chegado o momento ideal para ter um(a) filho(a). E assim foi.
Demorou algum tempo até acontecer, mas quando aconteceu, tinha, entre tantas outras variantes:

Uma obstetra espetacular, que cuidou de mim da melhor forma possível. 
– Uma gravidez muito desejada, mas ligeiramente conturbada, dada a intensa sintomatologia que me assistiu [vomitei bastante do inicio ao fim da gravidez]. 
– Chegado o momento, um parto induzido, mas sem dor.
– Assim que a vi e senti, sem dúvida alguma que tinha uma filha linda, e após devidamente observada, considerada saudável.
– Um marido atento, cuidadoso e que me ama, tal como sou.
– Uma mãe, um pai e uma irmã, preparados para darem tudo e mais um par de botas, para me ajudarem.

– Amigos verdadeiros, com quem podia contar. Com quem, desde sempre, pude contar.

Nós, a preparar a saída da maternidade no dia 31 de Dezembro de 2014.

                  E ali. Logo ali, a 31 de Dezembro de 2014, poucas horas antes do virar do ano e já em casa, começam as minhas 4 semanas de terror. Será que estão a questionar-se sobre a minha última afirmação, após todos os factos que vos apresentei? Se estão, eu respondo: Sim, terror. 
      Foram semanas muito complexas, especialmente a nível psicológico, as que se seguiam. 
                 Já ouviram falar de babyblues? Eu nunca tinha ouvido falar do cerne dessa mesma questão, previamente. Chorar? Ficar triste? Estar Chateada? Irritada? Qual quê! 
       É muito mais do que isso. Muito mais do que isso.
Cerca de 30 minutos após a chegada, começo a sentir o cansaço a pesar inerente às alterações das novas rotinas, e tudo o que poderia envolver as sensações físicas de um pós-parto e sento-me para descansar um pouco.
De repente, paro, escuto e olho à minha volta. Começo a sentir-me estranha, é complicado explicar a sensação. Não é mal disposta. É mais, triste, angustiada, parece que de repente injeta-se em mim uma hiper-consciencialização das características desta minha nova fase de vida, e começa-se a abrir uma cratera na zona mais profunda do meu ser. E pior, parecia que já ali estava há muito tempo, bem tapadinha, por uma película muito fina, mas resistente. Não consigo perceber porque é que esse buraco se começa a abrir logo ali, naquele momento em que estava só comigo e com a minha filha, no ninho que fui criando para ela. 
Não consigo perceber. É certo! E rápido se desenvolve um turbilhão de emoções que começam a girar à minha volta, que surgem e urgem de expressão, pelo que, desato a chorar compulsivamente. Enquanto choro sem conseguir parar, fecho a porta e rezo para que ninguém me veja naquele estado. Só conseguia pensar: “Mas o que é que se passa comigo? Deveria estar tão feliz com tudo o que me está acontecer de bom, e só consigo chorar? Porquê? O que se passa?”
A situação foi piorando nos dias que se seguiram e intimamente, só me queria isolar, chorava de repente e compulsivamente mal alguém verbalizava alguma coisa que não me caísse tão bem  (às vezes sobre assuntos mais complicados, mas outras vezes, sobre assuntos que pouca importância teria dado se estivesse tranquila), com mudanças rápidas e intensas de humor.
Para além disso, fazia-me imensa confusão que as pessoas viessem ver-me a mim e á minha filha e a quisessem pegar ao colo. Achava que todos eram chatos, inconvenientes, e sentia que precisava de tempo para mim e para ela (no fundo, para nos conhecermos melhor uma à outra) e que ninguém o respeitava. Sentia que ninguém compreendia este tempo e que todas as pessoas só ligavam às suas mais profundas necessidades de verem um bebé, beija-lo, pega-lo ao colo e não aquilo que realmente interessava: o descanso do bebé e o meu descanso. 
Comecei desde logo a sentir alguma revolta quando percebi que o problema era comum e que pouco ou nenhum apoio estrutural e/ou teórico havia a nível nacional, e a pensar concomitantemente: “Porque é que, se este é um problema tão comum, ninguém me falou sobre isto? Mas será que só o aparecimento de incontinência, hemorróidas, dificuldades a nível sexual, alopécia, cáries, privação de sono, entre outros, é que interessam clinicamente? Mas será que ninguém compreende como é que isto pode afetar a vida de uma pessoa, pessoal e coletivamente? 

Nós, na nossa primeira semana em casa.

    E há medida que o tempo passava a situação ainda me revoltava mais. Aliás, o babybluespassou, de repente, de um dia para o outro (o que foi estranho também, mas pelo que me informei, normal) e a marca de tudo o que senti tão interna e profundamente, a forma como isso me transformou e me deslocou, a forma como me arranhou e sangrou durante o meu primeiro mês de maternidade, quando eu pensava (erradamente) que era tudo, ou praticamente tudo, um momento pintado de cores claras e suaves, continuou a matutar na minha cabeça. 
      E daí, surgiu este meu/nosso espaço. Pensado para ser dedicado à publicação e debate de  várias temáticas dentro da esfera feminina muito inerente a um papel maternal, mas, acima de tudo com um objetivo muito claro transverso ao seu desenvolvimento: Poder dar mais de voz à questão que me trouxe até aqui e ajudar, tal como um dia me ajudaram a mim, o máximo de famílias que for possível e que passam ou que poderão vir a passar pelo mesmo que eu: pelos tais, babyblues.
 

Nós, a trocar olhar cúmplice e ternurento captado pelo Pai.

Já agora…
…Sabiam que a Organização Mundial de Saúde estima que cerca de 60-80% das mulheres passe por esta fase no pós-parto? E que mais facilmente, desta forma, a pessoa possa desenvolver uma depressão pós-parto?

Dá que pensar, não dá?
Ana Vale
Autora do Blog Mulher, Filha & Mãe
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